Quase que eu acabo falando sobre internet, hoje. O Editor-Chefe me sugeriu que eu falasse sobre isso aqui (que por si só já valeria por uma coluna inteira) e minha assistente me deu a idéia de falar sobre spams. E eu aceitaria de bom grado as sugestões, caso a última semana não tivesse sido ao mesmo tempo tão estranha e tão esclarecedora. Mas isso que se foda, vocês não tem nada a ver com a minha semana, bando de ratos! De qualquer jeito, eu tenho uma história pra vocês.
Tudo começa no Pará, no recém-criado município de Ourilândia do Norte, no dia 18 de Agosto de 1988. Foi nessa quinta-feira de tarde chuvosa que a vida de Francisco acabou pela primeira vez. Foi tudo rápido demais pra fazer algum sentido. Na noite anterior, viu sua mulher na cama com dois homens. Achou que fosse estupro, mas o desespero da mulher quando o segundo parou de se estrebuchar no chão, garganta aberta pelo golpe de tesoura, o fez ver direito o que se passava ali. Pra quem nunca tinha feito mal a uma mosca, enterrar três corpos no mato pela manhã foi um começo e tanto. Ou melhor, um fim e tanto. Quando deu por si, já estava em Santana do Araguaia, completamente desesperado entre garrafas de cerveja. Saiu de casa sem deixar qualquer notícia, sem levar nada exceto o que tinha no bolso. Graças a minutos de fúria, sua vida inteira havia acabado.
Passou meses vivendo como um verme. Ficava dias deitado, pedindo dinheiro só pra ir pro bar. Comida, achava no mato ou no lixo, o que fosse mais fácil na hora. Levou mais de um ano pra que passasse a ter nojo de si mesmo e começasse a desejar vida novamente. Foi quando resolveu seguir o que há muito tinha ouvido falar: “A vida é melhor lá pro sul, sem todo o sofrimento dos garimpeiros e pescadores“. Se decidiu, então. Se a “vida difícil” do Norte foi demais pra ele, o velho Chico se sentia disposto e apto a se dar uma segunda chance. Uma segunda vida, dessa vez na cidade de São Paulo, onde as coisas são melhores pra todos.
Passou por Araguaína e Palmas, sem ficar em nenhuma das cidades por muito tempo. Catava papel e latas pra pagar por alimento e transporte, pois sempre achou que pedir esmola é atestar que desistiu de trabalhar. É ser uma casca vazia, sem vontade de viver. Dessa vez sua vontade o levaria a um novo começo, e nada o impediria disso. De Tocantins, nosso herói tomou um ônibus para a Bahia. Esperava conhecer Juazeiro, terra de seus pais, mas só descobriu depois de entrar no estado que a cidade não ficava de modo algum no caminho. Juazeiro para o norte, São Paulo para o sul. Acabou tendo a sua segunda morte, sendo esta na Santana da Bahia. Foi quando se meteu pela primeira vez com a bandidagem. Queria uma passagem direto pra São Paulo, e acabou ajudando a vender maconha pra conseguir o dinheiro. Foi seu primeiro contato tanto com as drogas quanto com bandidos, e descobrir que ele poderia se sentir feliz com um punhado de folhas ou algumas pedrinhas foi sua grande alegria na Bahia. Tentar ir embora sem pagar o tal Elizeu foi o começo de um de seus piores pesadelos. Talvez o pior não tenha sido a surra, e talvez nem mesmo o estupro. O que deve ter doído de verdade foi perceber de repente que não era o fato de ser um morador de rua que fazia as pessoas se afastarem tanto dele. A pior coisa foi ver que ele estava no mesmo estado que as crianças pra quem ele vendia a droga. Ver que ele fazia aquilo com gente que nem começou a viver ainda é que fez ele ficar mais uma vez, jogado pelos cantos, esperando a morte. E Ela, sádica como é, mais uma vez não veio. Só não queria morrer assassinado pelos homens do Elizeu, e por isso saiu da Bahia.
Atravessar Minas Gerais foi como passar por um campo minado no Inferno, com o chicote do próprio Satanás estalando ás suas costas. A essa altura, não queria de modo algum passar por Santana de Cataguases, nem por Santana do Deserto. Menos ainda por Santana do Garambéu, do Jacaré, dos Montes, do Manhaçu, de Pirapama ou da Vargem. Caminhar por qualquer lugar nesse maldito estado soava como uma enorme piada irônica. Dava quase pra ver Deus Todo-Poderoso, do alto de sua morada de ouro, apontando o dedo e rindo como um carrasco ri do movimento da cabeça degolada de sua vítima pelo chão.
Após dois longos e cansativos meses em Minas Gerais, o velho Chico aprendeu que nunca é tarde demais pra se tentar mais uma vez. Se apaixonou por Gabriela, moça bonita, de família, moradora de Uberaba, no auge de seus vinte e oito anos. Nosso herói, agora com trinta e nove, se sentiu feliz no início, quando aquela agradável moça começou a levar uma marmita pra ele todos os dias na hora do almoço. Dois meses depois, se sentiu desolado quando o marido da moça o ameaçou de morte, com medo de que o louco da praça atacasse sua esposa. Sem ter mais motivo para continuar na cidade, cruzou a fronteira, chegando finalmente a São Paulo. O sonho da regeneração estava próximo demais. E a Verdade estava terrivelmente longe.
A enorme e majestosa cidade de São Paulo a princípio assustou o nosso grande herói. Pensava numa cidade grande, não numa selva de pedra interminável! Foi lá que conheceu coisas como o churrasco grego e a tenebrosa verdade sobre a falta de emprego. Lá conheceu também os “pontos” dos mendigos, e conheceu a intolerância e o egoísmo. Foi também em São Paulo que nosso herói conheceu o que o intrigou bastante: Os grupos de jovens. Quer dizer, claro que ele já tinha visto alguns grupos e modas antes, mas foi só ali que ele pôde ver como a coisa toda vai longe. Eram grupos de punks, skinheads, góticos, patricinhas, deathrockers, clubbers, um nome mais esquisito que o outro. Se lembrou dos índios dos filmes de faroeste que gostava de ver quando ainda tinha uma casa, onde milhares de tribos de índios com nomes estranhos se matavam por diferenças entre a cor das penas ou a textura da pele de búfalo. Não entendia como reclamar de roupas e músicas era “protesto jovem”, nem entendia por que aquele monte de imbecis insistia em fingir que eram ELE PRóPRIO, bebendo até virarem cadáveres humanos se jogando pelas ruas.
E foi justamente na estação de metrô de Santana, junto com os garotos do chiclete, que Francisco percebeu que a burrice disfarçada e hipócrita de São Paulo era a coisa que mais o havia enojado em toda a vida. E se esse era o modelo para o país, alguma coisa devia ser feita.
Foi então que entendeu porque nenhuma das Santanas o havia matado. Ainda não era a hora de sua morte. Existia um propósito, uma missão a ser cumprida, e nosso herói a aceitou assim que conseguiu perceber tudo. Sua história deveria ser contada ao Presidente. Não interessa como, nem por quê, mas devia ser feito. Afinal, o homem teve uma visão, e visões nunca mentem. Seguiu então seu destino, junto a alguns bons amigos que havia encontrado. Cada um vindo de um canto, cada um com sua história. Lá se foram eles todos, caminhando até Brasília, com bocas vazias de dentes, mas corações cheios de esperança.
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Não sei o que ele viu quando resolveu dizer “ô madruga, chega aí pra nós trocar um papo”, nem sei o que fez com que ele me pedisse pra voltar na segunda, mas agora eu percebo que quando aquele homem me disse aquela frase, ele falava mais consigo mesmo do que com aquele cabeludo esquisito que lhe deu uma moeda e duas horas de atenção.
- “E então, moço, qual que é a moral de ser roqueiro?” Perguntou o mais jovem deles.
- “Moral? Cara, eu sou uma pessoa como qualquer outra”, respondi. “Você acha que eu sou diferente de você só por que escuto rock?”
- “Você é diferente de nós tudo, moço. Não diz que não é, moço, cê sabe que sim.”
- “Olha, Jão. Nessa vida cada um tem seu caminho. E cada um sabe por onde tá andando. O importante, irmão, é saber continuar nele. É não parar no meio da estrada esperando milagre, que milagre quem faz é só nós aqui em baixo, mesmo. Só nós aqui em baixo.”
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Sinto por não saber lhes dizer o que o nosso grande herói aprendeu comigo nessa semana. Não sei por que esse homem quis arrancar meus olhos pra ver o mundo através deles, no segundo dia, muito menos por que ele parecia satisfeito com nossas conversas ao longo da semana, como se aprendesse comigo tanto quanto eu aprendi com ele. Não sei por que ele me disse ontem que fui eu que o fiz perceber que, vinte anos depois do fim da vida de Francisco (e o começo da vida daquele homem sem nome, mas com olhos mais vivos do que qualquer pessoa que eu já vi), era hora de voltar pra casa. O que eu sei é que nosso herói pode não ter encontrado o presidente, mas se alguma coisa fez com que ele me escolhesse como o contador de sua história, aqui estou eu fazendo a minha parte.
Boa viagem, meu amigo.
Eu sei que o texto de hoje foi a coluna mais pessoal que eu já escrevi, e que talvez nenhum de vocês tenha nada a ver com nada disso, mas eu tenho uma história. E eu tinha que contá-la aqui. E eu tive que mentir onde eu menti.
