Mas é que se agora pra fazer sucesso, pra vender texto de protesto, todo mundo tem que reclamar, eu vou tirar meu pé da estrada e entrar também nessa jogada, e quero ver quem é que vai güentar.
O negócio é que a moda agora é ser rebelde. A onda é reclamar, fazer barulho, jogar molotov e xingar a mãe. Quem se importa se ninguém sabe do que reclamar? O negócio é sair atirando pra todo lado. Ser rebeldão do mal hoje em dia é tão simples quanto tocar violino: você não encara o mundo de frente, mas vira a cara e mete a vara. Daí pra frente é só anunciar o cheque-mate. Você tá certo e o mundo, errado. E quem discordar de você é idiota. Fácil, rápido e prático.
Não que você tenha culpa por ter crescido retardado assim. Pelo menos não toda a culpa. Quer dizer, dá uma olhada no que acontece no Brasil, amigão! Você passou sua infância toda aprendendo que o mundo é linear e exato, que o bem e o mal se distinguem tão fácil como o azul e o vermelho e que as coisas são todas certas e bonitinhas. E que tudo tem o caminho certo pra ser percorrido. Te empurraram isso goela abaixo, do mesmo jeito que sua mãe te fazia comer óleo de fígado de bacalhau quando você era bebê. É até natural que vocês todos sejam meio abobados, claro.
O cara cresce acostumado a ter horário certo pro colégio, dia certo pra isso e aquilo, caminho certo pra chegar ao mercado de trabalho, meios certos pra reclamar, regras pra seguir e por aí vai. Não que isso seja lá um problema tão grave. No fim das contas, as pessoas até conseguem aprender a questionar sozinha. A coisa começa a se complicar mesmo é depois.
Na verdade, nem é tão complicado assim. Quer dizer, você se acostumou a viver uma vida linear e simples, e agora as Vozes Eletrônicas te dizem pra quebrar tudo. É claro que você vai fazer merda. Nunca te ensinaram a reclamar, como você vai saber pra que lado atirar? O mundo primeiro te ensina que atirar é ruim, depois te pressiona até não poder mais e te entrega uma uzi na mão. Não tem outra, cara, você vai soltar porcaria pra todo lado. Te ensinaram a jogar merda no ventilador, e não nos outros.
O que me irrita mesmo é que vocês bichonas costumam generalizar tudo. Ninguém se importa em saber qual é o caso, na verdade. Desde que você sacuda a cabeça e taque fogo no estofado, quem se importa o que você tá falando? E é por isso que personagens como o Capitão Nascimento acabam virando heróis. Eles são o que você quer ser, no fim das contas: um babaca arrogante que tem um jeito ácido de falar as coisas e não é questionado de jeito nenhum. Frases de efeito seduzem mais do que conteúdo, e isso não é coisa nova. O interessante é sair gritando “This is Sparta!” ou “Não vai subir ninguém” por aí. Quem quer saber o que CARALHO é esparta? Quem se importa em saber ONDE nego não vai subir? As frases são boas pra se gritar, e isso é o bastante, certo?
Claro, eu não posso esperar mudar qualquer coisa com um texto simples desses. No fim das contas, eu sou apenas um latino americano que não tem cheiro e nem sabor. E minha coluna, sendo nuvem passageira, não me leva nem á beira disso tudo que eu quero chegar.
…e fim de papo.

