Só mais um dia em nosso belo país tropical.
ás vezes você simplesmente sabe que as coisas vão ficar esquisitas. Todos os sinais que o mundo te dá apontam pra isso. É o que acontece quando você entra em um ônibus quase vazio, exceto pelo motorista com metade do rosto queimado, o cobrador e uma passageira, ambos anões, e uma albina careca. Você desce no meio de um lugar completamente desconhecido e vê um cego na faixa de pedestres, duas velhas - uma tremendo e a outra babando - caminhando, e todas as lojas estão fechadas. E, diabo, as pessoas estão todas comendo peixe e celebrando um sacrifício humano de dois mil anos atrás!
Quando aquele sujeito apareceu, eu sabia que estava pra acontecer. Quer dizer, ele era provavelmente a única pessoa normal ali, no meio do Mundo Bizarro. Com certeza, tinha algo de errado. Pois bem, esses são os acontecimentos que se seguiram:
Em primeiro lugar, veio a faca. Não faz muito sentido mostrar uma faca a um cego, de qualquer jeito, mas os dois atravessaram a rua.
“Tu perdeu, mané”, disse o homem. “Vamo ali comigo, quietinho, quietinho”.
“Mas… o que você quer? É dinheiro?”
“Quietinho, eu disse. Só quero ver a carteira entrando no beco”.
Andaram quase como dois irmãos. As pessoas aprendem a fingir na hora do sufoco, de qualquer jeito. Pelo menos aqui. Já era de se esperar, não? Quem são os nossos heróis, no fim das contas?
Temos Pedro Malazartes, que faz de um urubu adivinhão e um punhado de mentiras seu ganha-pão. João Grilo, que foge até do diabo com enganação e esperteza. De manhã vemos no jornal como um gordinho carismático enrolou meio Brasil com lorotas bem contadas e viveu como um rei. Depois do almoço, torcemos pra que Seu Madruga consiga mais uma vez adiar o aluguel. No cinema, ouvimos a história de forasteiros rebeldes, que torcem qualquer lei com suas sub-metralhadoras. Sua violência depois é justificada porque ele “fazia o bem”. De noite, tem o maldito Pica-Pau. Baita sujeitinho esperto. Colocamos as crianças pra dormir contando como um gato falante com botas matou um gigante usando de sua lábia e vamos, por fim, orar ao Senhor, o mesmo que pede o sacrifício de filhos só por pirraça. Dá pra imaginar o Altíssimo descendo de seu enorme trono e dizendo “Íáááá! Pegadinha do Malandro!”
O fato é que, nas telas e nos contos de fada, os fins sempre justificam os meios. Fora delas, os meios causam uma baita duma frescura. Entra aquele negócio do “politicamente correto”, de você não poder chamar um negro de negro ou um viado de viado. Acho que todo mundo já pensou em mandar esses cuzões todos tomarem no meio de alguma coisa, de qualquer jeito.
Você vê, o racismo mesmo, ele tá mais nos ouvidos do cara do que na boca de quem diz. Quer dizer, o cara diz “e aí, bicha” e a bicha se ofende? Quer dizer, alguém OBRIGA o cara a ser bicha, pra ele ficar tão sentido?
O que me faz pensar naquela faculdade pra negros que criaram agora. Faculdade Zumbi dos Palmares, né? Eu sei lá o nome. Tudo começou com as cotas - o governo dizendo que os negros não tem capacidade pra competir com o resto do mundo. Depois, essa faculdade-quilombo, dizendo que eles precisam de toda uma estrutura de ensino especial. Qual o próximo passo? Banheiros separados? Apartheid? Vocês são todos uns cuzões, porra! E ainda querem dizer que eu é que sou o racista? Cuzões, cuzões, cuzões!
Ah, o cego? Voltou dez minutos depois, com a vareta quebrada, sem os óculos escuros e com a carteira do assaltante. Me olhou com um sorriso esperto no rosto. Aquele de quem sabe que você percebeu a coisa toda. Examinou a carteira, guardou no bolso e riu.
“Ah, onde esse país vai parar? Até os assaltantes são manés hoje em dia, maluco. Cair no conto do cego? Pffff! Fica na paz, irmão”.
Agora, o que eu realmente gostaria de saber é como os anões fazem pra puxar a cordinha caso estejam sozinhos no ônibus.
6 comentários
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Putz, até que enfim achei alguém que pensa o mesmo que eu sobre o racismo. Porra, o cara pode ser negro e gritar pro mundo que é preto, mas se tu chama o cara assim, mesmo que não seja de modo perjorativo, ele se ofende e já quer te meter um processo. O mesmo com homosexuais. E se alguém me chamar de branco ou pardo (sei lá que cor eu sou) eu posso me ofender também? E que anti-racista em sã conciência defende algo como cota para negros e índios em faculdades? Se o pensamento é pela igualdade porque tratamento diferenciado? Ae sabe o que acontece? Eu me mato de estudar pra disputar 12 vagas com milhares de pessoas (e não consigo) enquanto o cara só não precisa errar nada, porque das oito vagas restantes (que foram reservadas para negros e índios) apenas há quatro participantes. Quem está sendo discriminado?
Tchulanguero
25/03/08 | 10:50 am |
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cara … uma vez discti com um negro sobre cotas de negros na faculdade … ele me disse que era a favor, e o único argumento que sabia usar era de que “os brancos estavam devendo isso a eles, por todos os anos de escravidão” …. acho que não preciso dizer que chamei ele de “nego burro” né? mas bah, vá a uta que o pariu né? todos os negros que conheço são contra essa merda de cotas … e outra coisa, v nes faculdade de negros ver se existe cotas para bancs vai …. vc vai dar de cara e um grande NÃO. O maior preconceito vem dos negros de não se acharem capazes ou de querer um trtamento diferente dos demais (porra, vivemos num país que existem todas as raças andando nas ruas, por que nao existem cotas para albinos ou japoneses?)
sobre os homossexuais: são tudo um bando de viados mesmo =P porra, se você é assumido qual o problema em alguém te chamar de viado? ou gay? (existem gays que ficam ofendidíssimas quando são chamados e gays) não é isso que você é? você tem algum problma consigo mesmo para ter vergonha do que vc é? então simplesmente deixe te chamarem do que quiser.
Bruno pM
25/03/08 | 11:47 am |
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Um fato muito curioso é que eles nao perceberam que as cotas desqualificam o negro pro mercado de trabalho, pensa assim, daqui a 10 anos ce vai num medico, ele é negro. Como ce vai confiar que o cara estudou mesmo e sabe das coisas ou foi simplesmente alguem que passou pelas cotas, é obvio que ce optaria por ir ao medico branco.
Alias se chamar preto de preto é racismo, eu também posso processar se alguem me chamar de branco? afinal, eu sou é CAUCASIANO Ã’_ó
Leef
25/03/08 | 12:47 pm |
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@Leef
Pode sim processar alguém se te chamarem de branco.
Racismo é coisa de negão, sério mesmo eahaehea.
Acho que todo mundo falou das cotas, mas eu vejo outro problema: a discriminação DENTRO da faculdade. Porque assim: Quando você se inscreve para o vestibular (ao menos aqui), tem as opções ”Egresso de Escola Pública/Negro(tá, afro descendente)/Acesso Universal”, tudo isso na mesma opção, não existe cota para negro de colégio particular aeheah.
As outras duas opções são ”Egresso de Escola Pública/Acesso Universal” e somente ”Acesso Universal”
Dai veja assim, vai lá o negão, entra no esquema de cotas, e ele não passa por elas: Entra pelo acesso universal porque teve uma média boa.
Acha que alguém vai imaginar isso lá dentro? Vão ver um negro e pensar ”Cotista”. Não interessa se ele foi o primeiro colocado em Medicina, até ele provar que focinho de porco não é tomada já levou um choque.
Sem contar os malandros que são brancos, tem pai ”moreno”, e entram por cotas, porque podem. Já que a cota não é ”Pessoa de pele negra” é ”descendentes de negros”.
E antes que alguém venha dizer ”Miçigenaçaum! Td brasileru tein um pesinho na afrika!”. Vão tomar no cu, descendencia é até terceira geração (ou seja, se teu avó é negro, você pode se considerar afro DESCENDENTE)
nm
25/03/08 | 1:14 pm |
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Muito bom…
“Você vê, o racismo mesmo, ele tá mais nos ouvidos do cara do que na boca de quem diz.”
ótimo texto!
Olaf
25/03/08 | 2:34 pm |
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Bom, apenas assino embaixo do que vocês escreveram…
E só gostaria de citar uma entrevista que vi na tv na época da implementação do sistema de cotas, onde um professor NEGRO de uma universidade do Rio de Janeiro disse que “o sistema de cotas vai na contramão da luta contra o racismo” e que ele era contra isso, lógicamente. Outra coisa que ele disse é que “se deveria ter um programa para pessoas pobres, e não se diferenciar por cor, mas isso já é (mal) feito com o sistema de bolsas, ou poderia ser criado um sistema de curso preparatório nas universidades do governo, para que o ensino não seja nivelado por baixo”.
E ainda acho que no Brasil existe sim racismo, mas é de menor incidencia que o preconceito de classe social.
Caio, The Eldar
25/03/08 | 9:49 pm |
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