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Eu Odeio Isso Aqui

05 de fevereiro de 2008, às 9:13

Madrugada dos Mortos

ou “Relato autobiográfico de uma madrugada solitária na cidade grande”

Eram duas da manhã, quando a terrível verdade me atingiu quase como um tiro no joelho. Dentro de poucas horas eu estaria por minha conta, sem nenhuma direção para casa, como um Rolling Stone. “Siga em frente”, me disse um sábio certa vez, “com esperança em seu coração, e você nunca andará sozinho”. Achei incerto, mas acreditei. Me lembro de termos caminhado pela madrugada da Califórnia, ou talvez no Texas, certa vez. Foi quando conheci sua fixação sexual por lésbicas e acidentes de carro. Mas isso é história pra algum outro dia.

O ponto onde eu quero chegar começa ás quatro e vinte, no terminal Bandeira. Eu atravessava a catraca. á minha volta, algumas poucas pessoas com expressão vazia, destruídas após um dia difícil. Andavam como robôs, e seus olhos não fitavam as ruas ou o céu. Era como se cada uma daquelas pessoas tivesse os olhos voltados para dentro, e fitasse a si mesmo. Foi aparentemente, o último suspiro do cidadão paulista, e a cidade, então, adormeceu. Aquelas poucas pessoas passaram lentamente, e, aos poucos, desapareceram. Mas não eram mais eles a atrair minha atenção. Eu, cercado pela armação de concreto do terminal, vi, de relance, um breve sinal de vida. Luz e calor no meio da noite vazia.

Eles se moviam quase como ratos, olhando em volta repetidas vezes, como se quisessem se certificar que os predadores se foram todos. Como cães, farejavam o lixo, roendo qualquer coisa que lhes parecesse comestível. A distância não me deixava ver as expressões em seus rostos. Desci as escadas. Dois policiais separavam as pessoas “de bem”, que conversavam cansadas dentro do terminal, das pessoas “da rua”. Me lembro de ter visto duas crianças brigando como hienas por um agasalho. Em volta deles, outras crianças andavam e faziam pose, porque sabiam que aquela ali era a hora delas. Durante o dia eles todos são obrigados a aguentar abusos por parte dos “cidadãos de bem”, que nem sequer tem a coragem de os olhar como pessoas. São gente invisível, exceto quando as pessoas querem reclamar. Me lembra aquele negócio da escravidão. “Ah, mas eles não tem alma, cara, não tem problema judiar”. Pois bem. Eles aguentaram pacientemente, e agora estavam ali, triunfantes. Agora éramos nós os desprotegidos. Como abutres, eles circulavam famintos e cheios de rancor sobre nossas cabeças, esperando que um boi mais estúpido se afastasse da boiada. Admirei aquilo por algum tempo. Não, sair dali não era problema. A luz refletida no cascalho era quase uma barreira contra o mundo exterior, protegendo as pessoas comuns dos urubus que rondam a noite. A poucos metros, a estação de metrô se abria como os braços de uma amante, pronta pra acolher qualquer sobrevivente da noite paulista.

Saí dali. Aquela proteção me incomodava. E me impedia de ver a coisa toda como eu queria. A fria brisa noturna acabava com qualquer sensação de segurança. É o mal da modernidade: Todos dizem que estão preparados pra enfrentar o mundo, deus e o diabo, mas ainda vivem numa maldita bolha. De qualquer jeito, eu sempre me dei bem com moradores de rua. Não sei se eles conseguem enxergar alguma coisa diferente nos meus olhos opacos e sem vida, se eles sabem que, no fundo, eu tenho algo como eles, se eles vêem que eu consigo enxergá-los (e, por trás deles, suas histórias e angústias) ou se eu simplesmente sou alguém que nem vale á pena perder tempo assaltando. Tanto faz. O movimento dos abutres me entediava, pois eles não estavam ali para viver, e sim pra assustar os vivos. Se contentavam em ser meros fantasmas por poucas horas. Me afastei dali.

Um homem jazia no chão. As duas mãos cobriam a face, como se até na morte ele se escondesse. Outro gritava, com uma garrafa na mão, e apontava para o falecido. Não fazia questão alguma de fazer sentido, e nem se dirigia a pessoa alguma. Com os anos de experiência, aquele homem já sabia que isso era inútil. Para seus olhos, as pessoas não eram pessoas, mas sim espectros etéreos incapazes de percebê-lo. Não, seus gritos não eram nenhum alerta. Eram só desespero solitário, a ponto do homem usar de sua linguagem mais particular para exteriorizar a angústia. Urros e grunhidos ecoavam pela manhã vazia. Atrás dos prédios, o sol nascia, indiferente e frio.

Outro homem atravessa a rua, sozinho. Por um breve momento seus olhos se desviam do negro desespero e encontram os meus. É o suficiente. Instantaneamente, ele abriu um sorriso. Os olhos, vermelhos, demonstravam um cansaço excessivo. A baba branca e espessa escorria do canto de sua boca e pingava em sua camisa, mas ele ainda sorria, satisfeito. Sabia que havia sido notado, e que não seria enxotado como um cão.

“A chave”, disse ele. “Perdi a chave”. Eu nada podia fazer, mas ele ainda se repetiu algumas vezes, como se esperasse algum ato divino do herói que o havia notado. Não havia nada a ser feito, eu não podia ajudar. Como se notasse minha inquietação, ele mais uma vez sorriu, deixando a chave e o desespero de lado. “Pra onde ‘cê vai?”, perguntou. Coçava a cabeça com seus dedos cobertos de baba, e ainda me olhava com alegria.

“Pra lugar nenhum”. A risada simples se tornou então uma gargalhada amigável. “Então você não tem como se perder”, disse ele, quase num momento de lucidez. “Não tem como se perder. E eu aqui sem a chave. Esperto é você, que não precisa delas”.

Uma família de moradores de rua dormia no que, se me lembro bem, era um posto de gasolina abandonado. O contraste da cena seguinte me fez parar por vários minutos e observar o desenrolar daquilo tudo. De um lado da rua, uma mulher saía de casa. Os olhos verdes e vivos eram janelas para seus sonhos, seus planos, sua esperança. Passou por mim com o ar de quem está pronta para um novo dia, pronta para seguir em frente com sua vida. Pouco depois, um homem á minha frente lentamente despertava. Não tinha a menor vontade de se levantar, ou pelo menos era o que o seu olhar vazio me dizia. Talvez preferisse nem ter acordado. Talvez nem mesmo soubesse se estava vivo ou morto. Foi só quando o resto deles acordou que o primeiro homem mostrou algum sinal de esperança. Todos então conversavam, e, apesar de seus olhos ainda parecerem tristes, eles agora possuíam uma frágil esperança.

Andando entre uma estação e outra, esperando matar o tempo, uma senhora me para:

“Bom dia, filho. Você quer que eu ponha seu nome na nossa lista de oração de hoje?”
“Agradeço a gentileza, mas não, não quero.”
“Mas vai te fazer bem. Jesus vai resolver seus problemas de família, de dinheiro, de amor.”
“Não tenho nenhum desses problemas. Não quero sua oração.”
“Mas você precisa de Jesus. Todos precisam de Jesus.”
“Eu sou ateu, senhora. Não preciso de Jesus, nem da sua oração.”
“Ah, mas aí é que você precisa da oração, mesmo! Não quer colocar o seu nome lá?”
“Olha. Você tá vendo aquele homem? Aquele gritando sozinho, com o outro caído do lado. Ele precisa da sua oração. Ele precisa da sua atenção. Vê aquelas pessoas deitadas com os cobertores? Eles precisam da sua oração. Por que você quer a mim quando só precisa olhar pro lado pra encontrar gente necessitada de verdade? Eu não quero a sua oração, não preciso de Jesus e me incomodo com você.”

Passei uma noite conhecendo aqueles que se escondem do mundo. Aqueles que você humilha durante o dia porque acha que acordou cedo demais e brigou com a mamãe. Aqueles que você trata como simples pestes que te atazanam durante a parada no semáforo, por motivos inúteis. Pude ver a dor solitária e reprimida daqueles que você trata como sacos de pancada morais. Mas o mais terrível não é ver uma pessoa acordar desejando estar morta. O que é realmente assustador é de repente reparar que isso acontece todos os dias, e vocês são tão covardes que simplesmente fingem que essas coisas são invisíveis.

Não acho que pra mim a história fique completa sem citar o que se passou antes e o que se passou depois. Não que eu me importe com isso. De qualquer modo, só a Madrugada caberia aqui.

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10 comentários

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Nossa,nem sei direito o QUE comentar.E aquela senhora,que que se fez dela?

joao

05/02/08 | 13:03 | #

Piratão,você é foda cara.
Esse texto deve ter sido simplesmente o mais foda que você já escreveu.
Mostrar as pessoas um pouco do que se passa com aqueles que ignoramos durante o dia,foi genial.
Eu olho pra essas mesmas pessoas durante o dia e fico remoendo pensamentos sobre elas,suas vidas e tudo o mais que tiver pra pensar,chega a ser triste,mas nunca tive a oportunidade de vê-los a noite,de ver como essas pessoas vivem em seu momento de maior liberdade,embora ainda seja triste.
Realmente esse texto me tocou,procuro palavras pra me expressar,mas é dificil esse texto é pra ser sentido e não analisado tecnicamente ou algo similar.
Espero que aqueles que lerem isso sintam o mesmo que senti e mudem um pouco sua visão.
Obrigado por esse texto Piratão.

Elfo

05/02/08 | 13:48 | #

Eu já tinha previsto que essa seria a melhor coluna do AOE.

atillah

05/02/08 | 18:00 | #

“Eu já tinha previsto que essa seria a melhor coluna do AOE.”
E previu bem.

Eduardo

05/02/08 | 20:50 | #

sem palavras. ótimo texto. queria poder falar mais, mas acho que não seria o suficiente.

santhyago

05/02/08 | 21:21 | #

Realmente, de longe, o melhor e mais profundo(hoho) texto que já li no site.
Parabénsaê.

Grivu

06/02/08 | 23:30 | #

O sábio afixionado por lésbicas e acidentes de carros agora ganhou uma nova fixação: gárgulas de pedra do Centro de São Paulo.

thiago

07/02/08 | 0:00 | #

Nossa…

Isso foi foda cara, sempre li este site e nunca comentei, mas isso foi de sufocar pela sinceridade. Compartilho muitas das suas opiniões sobre moradores de rua, mas depois de ler isto, vejo que estou bem guardadinho dentro da bolha.

linho

11/02/08 | 19:23 | #

Quem conhece esse cara aí sabe que ele é capaz disso e muito mais. Parabéns pelo texto, pela coragem e pela humildade.

Florinda

26/02/08 | 14:48 | #

Depois de tentarem me assaltar algumas vezes ali perto do terminal bandeira, perdi a compaixão pelos mesmos, rs
Claro que aí entra toda aquela questão da desigualdade social e tal… Enfim…

Fernando

31/07/08 | 0:07 | #
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