Bom, eu posso falar de olhos fechados que todo mundo aqui já foi criança um dia e acertar em cheio. Não precisa se assustar não, eu não sou nenhum médium pra saber disso. Seja lá o que um médium faça, é claro. Não deve ser algo muito importante, né? Tem a ver com gordinhas?
Eu me lembro da minha infância como se fosse ontem. Não que eu seja tão velho quanto o santhyago, membro maníaco-depressivo do site mais quente da galáxia, a ponto de usar essa expressão com tanta… firmeza. Calma, minha infância foi REALMENTE ontem. Eu era virgem há duas semanas atrás, porra. Enfim, minha infância? Muitas lembranças. Eu andando de bicicleta em alta velocidade sobre umas pedras e caindo com a costela em cima do guidon; eu correndo em uma escada enquanto conversava com uma galerinha e, como eu não conseguia fazer duas coisas tão complexas assim ao mesmo tempo, enfiando a cabeça no trinco do portão; eu vendo meu irmão jogando uma latinha de thynner no fogo, o que causou em uma explosão e ainda queimou nosso vizinho e, é claro, eu fiquei de castigo por isso – até eu falar com a minha mãe que eu não tinha nada a ver com aquilo, mas eu já tinha apanhado; eu tentando sair do mar e voltar pra areia da praia quando caio num buraco e fico submerso por alguns segundos; eu colocando uma tesoura na tomada e queimando os fusíveis de casa – mas ninguém ligou pro puta choque que eu tomei, claro; eu caindo de boca num banco e afundando totalmente meus dentes; eu comendo merda… tá, dessa eu não lembro. Me contaram.
Ah, que saudade. Agora, eu nunca vou me esquecer de como eu era folgado.
Sabe, tinham uns putos que adoravam jogar bola em frente a minha casa. O mais legal de tudo isso era o seguinte: o gol era o portão do meu maldito lar. Era o dia inteiro aquele barulho infernal, a bola caindo dentro de casa, filhos da puta falando palavrão e, é claro: ninguém me chamava pra jogar.
Mentira, eu sempre jogava.
Mas quando eu não jogava, eu ficava puto com aquele barulho todo. Então, quando eu via que eram uns pirralhos que estavam jogando bola, eu ia lá tirar uma satisfação com eles. Aqui é zona sul, mano.
- Ei, eu já falei que não é pra jogar bola aqui.
- Mas eu n…
- Eu to mandando, porra.
- É q… [leva um tapa]
- Já falei, mano. Se vier jogar bola mais uma vez aqui, eu te arrebento.
- Ah, é?! Eu v… [leva outro tapa]
- Fica quieto, seu filho da puta. Filho da puta. Filho da puta. - e por aí vai… até que ele falasse alguma coisa.
- Eu, eu…
- Ele é veado, né? - Perguntei pra outro pirralho.
- Hihihi… não sei. HIHI. [leva um puta de um tapa] - Diz o outro pirralho.
- ELE É VEADO SIM, CARALHO!
E ia nisso até que a mãe de algum moleque chegasse pra tirar satisfação comigo. Aí eu ficava na miúda, é claro. Com o cu nas duas mãos. Nem lembro quantos anos eu tinha, mas eu era uma versão mirim do Capitão Nascimento com o vocabulário incompleto. Eu era um pirralho batendo em outros pirralhos; é claro que eu nem me metia com os fanfarrões mais velhos.
Mas era um hobby. E nem por isso eu era odiado, pelo contrário: A turminha do futebol era sempre unida. Acho que rolava uma compreensão do tipo “o cara só está protegendo seu território”, ou “vou continuar mantendo contato com ele pra, quem sabe, comer sua irmã em breve”. Aposto que eles pensavam isso, mesmo eu não tendo uma irmã. E era por isso que eu me divertia tanto chutando pequenas bundas.
Isso quando não vinha algum irmão maior e me descia a mão, mas isso é outra história.
Texto retirado e editado do antigo blog AOE.





