» Algo em Nada

Existem textos em que o título, mesmo que pequeno, consegue sintetizar a idéia geral do que está escrito

Definitivamente não é esse o caso.

Tocou o último acorde com desdém. Não agüentava mais aquilo de treinar, treinar e nunca se apresentar. Queria ação. Queria subir no palco do São Jorge e ver as arquibancadas (ele chamava a platéia de arquibancada) lotadas, todos gritando seu nome: Jo-el, Jo-el!. Mas não. Não podia. Mamãe não deixava. Não queria ver seu lindo filho exposto daquela maneira. Onde já se viu, sujeitar alguém tão novo às intempéries do julgamento popular? Não, ela não ia agüentar aquela agonia. Não ela. Não que não confiasse no talento do filho, mas o histórico de loucura da família a fazia acreditar que aquilo era hereditário, e que uma rejeição diante de centenas, talvez milhares, de pessoas poderia desencadear uma crise que levaria o menino do palco direto para o hospício. Ela não queria perder mais um ente querido para aquele inferno. Não queria todo aquele sofrimento mais uma vez. Seu pai, seu avô, um tio e duas primas estão ou já estiveram lá. Não há espaço para mais um Teodoro Maciel no Sanatório São Miguel.

Joel olhava fixo para o busto de sobre o piano. Aquele pequeno porém imponente artefato de cera estava na família há mais de um século. Sempre ali, sobre o portentoso instrumento, vigiando a recinto e todo aquele que por ventura viesse sob ele estudar. O nome na base, Ludwig Van , talhado meticulosamente a mão e coberto com uma fina camada de ouro, não deixava dúvidas que ali jazia um pouco da alma do grande mestre. Não à toa que daquele piano saíram três dos mais conhecidos maestros nacionais, ganhadores de prêmios internacionais e sublimes diretores da Orquestra Sinfônica Nacional. Todos descendentes do Coronel Isaac Maciel, o patriarca da família. Todos estudaram música naquele piano, sob o olhar ao mesmo tempo fraterno e acusador daquele que é considerado um dos pilares da música ocidental.

O olhar do garoto denunciava uma imersão sem precedentes. Era como o olhar de alguém hipnotizado, alheio a tudo e a todos em sua volta, com um foco quase inverossímil num ponto pré-determinado e que ninguém consegue encontrar senão ele mesmo. Fizesse sentido ou não, Joel conversava com . “Que faço, ó grão-mestre varonil?” E na mente do rapaz o alemão fazia digressões dignas de um Sócrates no auge da bebedeira. “Meu filho, tudo o que você tem a fazer é aceitar. Aceitar, baixar a cabeça e continuar treinando. Sua hora ainda vai chegar, e, além do mais, mãe é mãe. Ela sabe o que é melhor para você. Enquanto você ainda é novo, deixa-a decidir. Daqui a pouco você fará 18 anos e poderá decidir o que quiser da vida. Por enquanto treine. Treine que você com certeza irá alcançar coisas bonitas”.

 “Ok, meu filho, aqui vai mais um conselho…”

A conversa seguiu animadora. Joel fazia questionamentos que tinha a resposta na ponta da língua. O velho maestro nem pedia tempo para pensar. Era pá-pum, como se dizia antigamente. E isso fazia o garoto feliz. Conversar com aquele rosto inanimado era sua maior alegria do dia. Era o momento que se sentia mais pronto, mais dono de si. Escutava os conselhos do amigo com a passividade de um padre e o comprometimento de um cão. Depois de ouvir o que o mestre pensava, Joel podia encarar qualquer platéia, podia tocar qualquer peça, podia tentar qualquer variação. Com os conselhos de , Joel podia tudo.

Despediu-se do busto beijando-lhe a testa. Para dar sorte, dizia. “Obrigado pelos conselhos, Ludwig Van”, Joel falou baixinho. “O senhor é o único que me entende nessa casa”. seguia imóvel, impassível como só uma estátua sabe ser. E, da cozinha, a mãe observava tudo. Viu desde o momento em que o menino se deixou levar pelo cansaço e relaxou nas últimas frases até a hora da mística despedida entre homem e objeto. Às lágrimas, pensou: “Já está louco, o coitado. Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei?”

→ por Maycon Dimas, em 01 de julho de 2009, às 9:00

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5 comentários – comente!

Belson

Algo me diz que esse texto não é humorístico.É legal até.Eu tb falo com um busto do Beethoven,mas ele só late.

[ RESPONDER ] » 01/07/09 | 12:51 | #

Walison Douglas

Ótimo!
A internet já faz o papel de arquibancadas.

[ RESPONDER ] » 01/07/09 | 13:36 | #

allan

esse 10:48 tem algum significado?

[ RESPONDER ] » 01/07/09 | 23:54 | #

gostei do texto ^^

[ RESPONDER ] » 02/07/09 | 20:24 | #

John

Que merda de texto

[ RESPONDER ] » 02/07/09 | 23:11 | #
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