Eu tenho essa compulsão inexplicável por livros. Eu até gosto de comprar roupas e sapatos porque, tipo, sou mulher, mas são os livros que me fazem cometer loucuras. Foi um livro que me fez roubar 20 reais do meu tio quando eu tinha sete anos. Pra registro, era um bem colorido, com páginas holográficas, que contava a estória da lenda do Rei Arthur. Mágico. E eu acabei não comprando, porque minha mãe descobriu que eu era uma ladra e me fez devolver a quantia.
Mas enfim, os livros na minha vida são os responsáveis pelo consumo compulsivo e irracional, aquele relatado pelos especialistas nas matérias sobre vício por consumo – eles dizem que o sinal de vício se manifesta quando você compra algo sem precisar, ou que não vai usar, e é isso que eu faço o tempo todo com os livros.
Acontece que eu tô longe de ler todos os livros que eu compro, mas isso não me impede de continuar comprando. Visito os sebos e as livrarias e se passo mais de cinco minutos é impossível sair de mãos vazias. Maldita hora em que os donos de sebos acharam que seria legal colocar uma maquininha de cartão de crédito á disposição do cliente.
Numa dessas minhas andanças pelas livrarias da região (que é o momento de caçada, no qual eu reconheço possíveis próximos alvos), avistei um livro cujo título me soou revolucionário. Era “Como falar dos livros que não lemos?” Me lembrei de ter lido um comentário sobre ele no excelente mas longo blog do Zeca Camargo e resolvi comprar. Quero dizer, quando vi já estava com o livro na sacolinha, a notinha do cartão de crédito na mão, caminhando em direção á saída. É sempre assim.
Um livro desse seria a cura para a minha compulsão. Se eu soubesse falar de um livro que não li, não precisaria mais ler os livros. Não precisaria mais comprá-los.
E não adianta dizer que a gente lê porquê quer, e não pra se exibir pros outros. A gente sempre se exibe. Além disso, nas rodas descoladas nas baladas da Rua Augusta (pra quem não é de São Paulo, é uma travessa da Av. Paulista que reúne todos os lugares alternativos e, como sabiamente resumiu um amigo certa vez, tem algum tipo de túnel subterrâneo que dá em Londres, dado o número incrível de artistas, músicos, roqueiros, loucos, beberrões e homossexuais que a região concentra.), você precisa falar dos livros que leu. Simplesmente precisa. Os filmes que você viu, os livros que leu e os discos que ouviu, meu caro, vão te posicionar na hierarquia – melhor, na cadeia alimentar – desses grupos descolados.
Tem aqueles títulos venerados em diferentes ambientes, e você vai ter que saber falar deles quando estiver frequentando esses lugares. No começo, pode parecer difícil separar os títulos entre as tribos, mas depois você se acostuma. Por exemplo, entre os nerds geek, você é nulo na roda se não tiver lido O Guia do Mochileiro das Galáxias. Ou Blade Runner. Entre os bicho-grilo, estudantes de filosofia, precisa de pelo menos um título de Kafka, um de Nietzche e um de Dostoiévski pra ficar no mesmo nível. Entre os jovens roqueiros metropolitanos, daqueles que usam All-star e óculos de acrílico, ter lido vários do Nick Hornby não atrapalha.
E a regra vale até se sairmos do contexto de agitação noturna urbana e formos para outro ambiente, tipo um churrasco com a família. Sabemos que leitura não é o forte do brasileiro, e provavelmente seu tio pançudo não é exceção nesse caso, mas mesmo num ambiente desse, onde ninguém fala dessas coisas de tanga (livros), eventualmente a oportunidade surge, e você vai querer falar d’O Segredo, d’O Código da Vinci, d’A Menina que Roubava Livros. Hoje mesmo, na rua, vi três tias bem no naipe “só leio livro de receita” falando com empolgação visível sobre “uma misteriosa organização chamada Opus Dei, que é controlada pela igreja católica…” Sim, best-sellers tem importância social.
“Como falar dos livros que não lemos?” é legal pra cacete porque reconhece e reafirma, de cara, essa necessidade que temos de discorrer sobre o que lemos. E, também de cara, deixa claro que é impossível ler a maioria dos livros. Lá, tá escrito que ler é muito mais um ato de não-leitura do que um ato de leitura – afinal, se você escolhe um livro para ler, está escolhendo milhões de outros para não ler. O autor Pierre Bayard, professor de literatura francesa da Universidade de Paris, fala das ocasiões diárias em que ele tem que falar a centenas de alunos, de maneira aprofundada, sobre livros que não leu, títulos clássicos, inclusive, e o faz sem despertar nem de leve a menor suspeita.
Pierre diz o que no fundo a gente até sabe, mas não costuma enunciar: alguns livros já fazem tão parte do senso comum é possível falar deles com propriedade e profundidade sem nunca ter encostado em uma página - ou seja, a leitura se torna até desnecessária. A maioria dos livros da lista do vestibular, pra dar um exemplo, eu nunca li, mas sei comentar com desenvoltura. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Macunaíma e Primo Basílio são alguns exemplos: não li nenhum deles, mas sou capaz de discorrer e inclusive citar trechos. E isso acontece com todo mundo que gosta de ler: é só parar pra pensar.
O mais surpreendente dessa estória é que eu também não li “Como falar dos livros que não lemos?”, porque achei o livro no geral bem chato, apesar da ótima idéia. Mas o legal disso é que não ter lido, segundo o o próprio Pierre, é exatamente o que me confere absoluta autoridade para escrever quase 5000 caracteres sobre o livro. Depois de não-ler o livro e entender o processo pelo qual a gente praticamente lê um livro sem lê-lo, me sinto segura para falar de todos os livros que não-li, até para discutir aspectos do enredo e dos personagens. Fantástico, não? Ficadica de não-leitura.
Como falar dos livros que não lemos

Título original: Como falar dos livros que não lemos?
Ano de Edição: 2007
Autor: Pierre Bayard
Número de Páginas: 207
Editora: Objetiva









