Tem algo de muito podre nesse mundo. E não sou só eu. Você começa a perceber o quanto as pessoas conseguem ser covardes quando objetos inanimados ganham alma.
Eu explico.
Um certo sujeito guarda uma espingarda pendurada na parede do corredor. É o tipo de coisa que faz muita gente ficar um tanto hostil só de olhar pra ele. Claro, você pode me dizer que uma espingarda é um instrumento da morte, que não traz bem nenhum pra humanidade, que toda arma de fogo devia ser banida e toda aquela baboseira que eu tenho que aguentar das senhoras católicas sempre que eu saio na rua. O que me leva a outro ponto importante aqui, mas isso fica pra daqui a pouco.
Talvez se eu lhe disser que o cidadão da espingarda mora em uma fazenda razoavelmente isolada a coisa já faça um pouco mais de sentido. Ela não parece tão satânica assim depois que você mostra que precisa dela pra se livrar de eventuais predadores como onças, ursos, dragões de komodo, vizinhos enfurecidos e fiscais do ibama. Mas esse ainda não é o ponto. A verdade é que a espingarda, por si só, não tem nenhuma ligação moral com o bem ou com o mal, nem tem a capacidade de ser sádica ou raivosa ou qualquer coisa assim. Ela só atira pra frente: é o atirador que a aponta pro alvo que ele quer.
Soa clichê, não?
Acontece que vocês ás vezes parecem um bando de retardados. Nem mesmo o clichê entra na cabeça de vocês. Claro, qualquer um pode repetir um ditado popular como “o pior cego é aquele que não quer ver”, mas pensar no que esse diabo de versinho quer dizer ás vezes parece ser complicado até demais pra muita gente.
Quer um exemplo simples? Drogas. É comum até demais ver gente por aí praticamente criando espíritos malignos que vivem dentro dos entorpecentes. Isso, claro, impede qualquer um de tentar pensar sobre a coisa com um pouco menos de parcialidade e de clareza. Em primeiro lugar, o cara já olha todas as drogas como se fossem iguais. E o mais incrível não é o sujeito imaginar, por exemplo, maconha e LSD como duas drogas iguais que fazem a mesma coisa - provavelmente algo como injetar milhares de pequenos demônios no seu cérebro, te tornando em um servo agressivo e malcriado de Satanás -, mas sim saber que uma visão maniqueísta e estúpida das noções de “bom” e “mau” está cravada tão fundo no cérebro do maluco que ele consegue ver uma barreira gigantesca separando as tais drogas ilícitas profanas de drogas lícitas e não-pecaminosas, como o álcool e o cigarro.
A coisa toda soa, no mínimo, estúpida. Um bêbado pode ser muito mais perigoso do que qualquer sujeito completamente chapado de heroína, e os dois podem ser inofensivos se comparados com um terceiro sujeito sóbrio. Não é o capeta da erva do inferno que te faz destruir carros de madrugada ou xingar sua mãe. Você é que fez a merda. Aí, claro, você, senhora católica, vem me falar sobre a dependência química e sobre filhos violentos que roubam a própria mãe pra comprar ecstasy na rua. Eu respondo isso com uma pergunta simples: Você trata o viciado ou exorciza as pílulas? Vícios existem vários, de todos os tipos, envolvendo substâncias lícitas, ilícitas ou mesmo substância nenhuma.
E é aí que eu volto pras senhoras católicas. Eu conheço algumas pessoas que conseguem ver o diabo dentro de uma reles lata de cerveja. E não é incomum que eu acabe sendo atingido por aqueles famosos olhares de reprovação pela rua. Geralmente a coisa começa com um elogio, partindo logo em seguida pra uma conversa sem graça, mas que envolve discretamente o ponto onde ela quer chegar. Por fim, chega sempre aquele comentário dado em tom amigável, mas que surge quase como um aviso sobre o que você faz de errado. É interessante que vocês percebam que a tal senhora católica não me conhece, e que eu não preciso necessariamente ter feito nada. “Errado”, pra essas senhoras, está escrito na minha testa. E, claro, é dever delas me levar de volta ao caminho da virtude e do bem, onde eu deixo de ser um homem das cavernas de olhos irritados e me torno um cidadão de bem, com voz de Sinatra e um sorriso brilhante de Bogart. E livre de todos os demônios que vivem trancados em long necks e cachimbos.
…já lhes contei que meu passatempo favorito nas noites de lua cheia é assustar as pessoas?
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