O leitor Apedeuta deve ter adivinhado o tema do próximo nTop do AOE. Só pode.
A hipocrisia é o principal pilar da sociedade. Sem ela, a sociedade rui. A frase é do sábio filósofo Rui, em uma de suas conversas com a Vaní. A hipocrisia é fundamental para tornar possível a sociabilidade. Desde as pequenas mentiras para escapar de um convite indesejado até ao comportamento dissimulado que o senso comum espera ver reproduzido. Quem foge aos padrões é no mínimo “estranho”, “esquisito” ou “revoltado”. Adiante.
Imagine o estrago que causaria em nossa reputação simplesmente dizer que não queremos ir a determinado evento. É fundamental pensar em alguma desculpa, por mais esfarrapada que seja para não ser desagradável. Se não procedermos assim, na melhor das hipóteses as pessoas passariam a pensar duas vezes antes de nos convidar para qualquer coisa, apenas para evitar o desconforto de ouvir novamente que alguém não quer ir naquela festa super-legal. Nunca é agradável ser confrontado com a idéia de que alguém despreza algo que valorizamos, no caso a tal festa.
Neste contexto, a sinceridade se torna absolutamente incompatível com qualquer tipo de relacionamento afetivo. (Considerando que todo tipo de relação, ou interação humana, é um relacionamento. Um autor tem uma relação, um relacionamento, com seus leitores, por exemplo)
Uma pessoa é sincera quando “se exprime sem artifício nem intenção de enganar ou de disfarçar o seu pensamento ou sentimento” (Dicionário Houaiss). Imagine como se tornaria insustentável qualquer relacionamento se jamais disfarçássemos nossos pensamentos ou sentimentos? Dizer que a nossa beldade está acima do peso, que a roupa que nossa irmã escolheu para sair é ridícula, que a namorada do nosso amigo é uma vadia, que o nosso colega do trabalho é um semi-analfabeto ignorante, e que não suportamos olhar para a cara daquele vizinho que sempre nos dá “bom dia”.
Para viver em sociedade é preciso dissimular e ocultar cada um dos sentimentos e pensamentos que possam vir a ser inconvenientes. A sinceridade é tida comumente como uma qualidade apreciada nas pessoas, mas é uma grande mentira. É a falsidade a qualidade indispensável nas pessoas. A sinceridade é um defeito incompatível com a vida em sociedade que deve ser eliminado, ou pelo menos controlado, pela nossa Inteligência Emocional.
IE é aquela habilidade que faz com que você seja aquela pessoa super-agradável, super-feliz, que está sempre de bem com a vida, que gosta de todo mundo, que nunca reclama de nada e não tem senso crítico. Uma habilidade nata em todas as pessoas falsas, e extremamente útil para a vida em sociedade.
Alguém poderia perguntar: “Mas as pessoas falsas não são desprezadas e tem um baixo status social?”
Sim e não, pequeno gafanhoto. A falsidade é a qualidade mais valiosa para a vida em sociedade, desde que ela não seja percebida como tal. O hipócrita nunca pode ser descoberto em sua essência. A falsidade deve sempre simular sinceridade. Se a falsidade for descoberta, a máscara da persona criada cai, e a capacidade de sociabilização será drasticamente reduzida. Afinal, pessoas falsas não são de confiança…
O senso comum exalta a sinceridade e condena a falsidade, mas na vida prática, os efeitos da sinceridade são extremamente negativos e os efeitos da falsidade são extremamente positivos. A forma de equilibrar essa equação é fazer com que pessoas acreditem em sua falsidade.
Mentiras sinceras me interessam, me interessam…
Você precisa ser falso a ponto de fazer com que todos acreditem que você é sincero, maximizando assim todas as qualidades que você não tem, mas finge ter, e ocultando todos os seus defeitos, se tornando assim aquele cara super-gente-boa que todo mundo gosta.
Costumo dizer que as qualidades das pessoas são irrelevantes. Toda qualidade é obviamente uma coisa boa e desejável, senão não seria uma qualidade… Claro que conhecer as qualidades também é importante caso elas sejam ocultas ou não tão aparentes, mas o fundamental a se conhecer nas pessoas são os seus defeitos. Só podemos dizer que gostamos realmente de uma pessoa quando a conhecemos a ponto de saber quais são os seus defeitos.
Somente quando conhecemos os defeitos de uma pessoa temos a oportunidade de considerá-la na completude do seu ser, podendo assim emitir uma opinião favorável ou não a respeito dela.
Como são respeitáveis as pessoas que não conhecemos bem. H. L. Mencken (Salvo engano)
O excessivo apego às aparências e idolatria não assumida à hipocrisia pode ter diversas explicações, mas acredito que todas estejam relacionadas ao medo e à intolerância às verdades inconvenientes e a facilidade em aderir às versões mais populares e às simplificações vulgares do senso comum. É muito mais confortável agir como gado seguindo a manada do que ser um indivíduo autônomo que faz questão de se posicionar quando discorda de algo.
Longe de fazer um juízo moral sobre a conduta existencial de cada um, o que mais vale aqui pensar os modelos que a sociedade nos obriga a seguir e a conveniência de aderir ou não a eles. É preciso pensar no tipo de relacionamento que pretendemos estabelecer com as outras pessoas. Ele vai ser baseado na agradável hipocrisia das aparências, ou na muitas vezes desagradável sinceridade da nossa essência? Façam suas escolhas.
Nota: O AOE não é responsável por este texto. Ele foi enviado por um leitor, Apedeuta. As únicas alterações feitas por nós são revisões gramaticais (mal feitas, por sinal), ou nem isso.
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→ por Chow Chow da OLOLCO Corp., em 05 de novembro de 2009, às 15:30
Tags: Hipocrisia, Sociedade, [ID] Apedeuta
Giulia
Me senti triste depois de ler isso. Não sou revolucionária, do contra, moralista nem nada. Mas sofri ao sair de casa -onde vivia alegremente com pessoas que não gostavam de mim e que me atiravam bolinhas de papel na escola- e vir para a cidade grande (óóó), onde as pessoas que não gostam de mim sorriem e dizem inverdades bonitas e pomposas… :D
Enfim, espero do fundo do coração não me contaminar, porém, me adequar. heheh
E alguém lembra quem disse isso:
“Eu gosto da humanidade. O que a estraga são as pessoas” ?
Esqueci…
Augusto
Ótimo texto! Perfeito com o que ocorre em todos os lugares.
Tinha este sentimento quanto às pessoas, mas não conseguia me expressar tão bem quanto o Apedeuta.
É muito difícil remar contra a maré da hipocrisia e falsidade, passando o tempo todo como um revoltado.
Agora, posso voltar a ter esperança que teremos um futuro, o importante é não desistir!
Vinicius
Ah, e o que seria de mim se eu falasse o que penso a respeito de todo ser vivo que vem falar comigo no msn e começa uma conversa com milhares de emoticons ou um “OiEEEeEWw”?
Um homem sem amigos, é claro.
Ruryk
Esse texto me lembrou do tema de um livro que li a pouco tempo, chamado “A sociedade de corte”, do sociólogo Norbert Elias, onde ele analisa o processo de racionalização dentro dessa sociedade.
De acordo com a tese dele, uma das características desse processo é que os membros da corte deixam de agir por impulsos afetivos e passam a racionalizar seus atos, trocando a ação imediata pela em longo prazo.
Além disso, para se participar do “jogo de corte”, é necessário dissimular as opiniões, para se tirar vantagem das situações.
Pode ser que discordem, mas vi grande semelhança nessa teoria com as idéias do seu texto. Semelhança, aliás, que chegou até a ser discutida um dia em aula, quanto a aplicabilidade dessa visão pra nossa sociedade atual.
Elias
“A hipocrisia é o principal pilar da sociedade. Sem ela, a sociedade rui.”
E o segundo parágrafo inteiro.
À pesar de ser desconfortante nos acostostumar-mos com a realidade, ainda sim nos acostumariamos. As pessoas simplesmente passariam a ver com naturalidade as diferenças de idéias. E não podemos imaginar também as coisas de uma forma errônea: “Ah , eu não gosto desse seu vestido, ele é ridículo, como vc consegue vestir essa merda?”.
Eu vejo as coisas da seguinte maneira se a hipocrisia não fosse algo fundamental para nosso sucesso social, algo do tipo: “Eu não gosto desse vestido, o vermelho não me deixa confortável, eu não gosto dessa cor, mas se vc se sente bem, vamos lá!”
Por que (porque? por quê? lol?), por mais rídiculo que vc possa achar algo, sua opnião nunca será hunânime (e viva as diferênças).
A raça humana é a mais adaptável que existe (tomara que eu esteja certo, estou com preguiça de procurar fontes). Acho, no mínimo, um exageiro falar que o pilar social ruiria se as pessoas deixassem de ser hipócritas, a humanidade se acostumaria bem, tiraria de letra. Me arrisco até em falar que as coisas melhorariam.
Mas eu achei legal o texto, e interessante seu ponto de vista sobre o nosso “termo de conduta social atual”. Realmente a hipocrisia e a mentira, reinam. Mas há quem ache ela necessária. Só nos resta entrar no clima e seguir em frente.
Ps.: Quando eu disse que gostei do texto eu fui hipócrita? todos foram? Durma com esse barulho. Boa noite
LOL
Vitor
a moral do texto não é esconder todos os seus pensamentos sobre a pessoa, e nem q é OBRIGADO fazer isso, apenas mostra, q infelizmente, a única forma de se ter uma sociedade equelibrada, é atravez da hipocrisia.
vitor
ou melhor, para se ter uma sociedade equilibrada, não é necessário a hipocrisia, é apenas tratar o proximo respeitavelmente. Quantas vezes eu já me deparei perguntando pra algum amigo meu se eu ando chato, ignorante, ou algo assim, pq as vezes eu posso estar agindo de forma errada. Agora se eu nunca tivesse perguntado pra algum amigo meu isso, eu continuaria bruto, e tendo “amigos” falsos, e não de verdade como os q eu tenho hj.
Ítalo
Expressou com palavras concisas tudo que nos é familiar dia após dia. Parabéns Apedeuta.
Mongo
E por isso que vivo na minha concha, quem realmente valer a pena vai insistir, e quebrar a concha e encontrar a perola
E assim que filtro os amigos que tenho, que mau da pra contar em uma unica mao cotó do Lula
Jonas Vieira
Concordo com o texto menos sobre o seu conceito de Inteligência Emocional…pelo jeito lhe falta muito dela para para criar tal baboseira.
Diego
Também não concordo com o conceito de inteligência emocional que o autor coloca.
Na minha humilde opinião, acredito que uma pessoa com um bom nível de inteligência emocional consegue ser “ponderadamente sincera”, digamos assim, e ter um bom relacionamento com todos que a cercam.
Não conheço muitas pessoas assim, mas sei que isso é possível e não deveria ser tão incomum. O que eu vejo que falta em todas as pessoas que eu topo no dia a dia e que seria uma espécie de pré-requisito para isso é o senso-(auto)crítico.
fabenrik
E se acabarmos indo mais longe ainda vamos notar que todos os padrões são impostos por minorias, e depois de muito insistir a maioria acaba fazendo algumas coisas virarem de senso comum… e a minoria acaba tendo que aceitar depois de muito agir contra… são pessoas como líderes políticos, religiosos, de vários grupos sociais…
Todos temos medo de não sermos aceitos, de não estarmos de acordo com o que esperam de nós mesmos…
Eu já gosto de verdade deste blog e sempre o visito mas hj vcs estão de parabéns em dobro, tocaram em um assunto que eu sempre discuto com as pessoas em minha volta, que as vezes pensam até que não gosto de nada, que sou revoltado…
Sinceramente, tenho até vontade de posteriormente fazer um blog voltado para o assunto abordando minhas diferenças pessoais da maioria das pessoas e a hiposcrisia que nos cerca… fazendo com q as pessoas possam ter sua própria opinião e sendo um exemplo para que possamos ter nossa individualidade!
um abraço
@fabenrik (twitter)
japanhere@hotmail.com (msn e orkut)
Arthur.RJ
“Dizer que a nossa beldade está acima do peso, que a roupa que nossa irmã escolheu para sair é ridícula, que a namorada do nosso amigo é uma vadia, que o nosso colega do trabalho é um semi-analfabeto ignorante, e que não suportamos olhar para a cara daquele vizinho que sempre nos dá “bom dia”.”
Em momento nenhum voce mentiu apenas omitiu informações desnecessarias na hora, voce não é falso mais sim reservado em seus pensamentos…agora se perguntar vale mais falar a verdade!
Acho que não é só pela canalhisse individual que somos assim.
Pra mim é como o meme, é mais fácil ser aceito sendo “legal” do que “sendo vc mesmo” (coloquei entre aspas pq não dá pra generalizar).
paulo
O ser humano por si só ja e solitário, amizades sao penas pra minimizar essa solidao.
O problema nao é somente a falsidade que a sociedade impoe, mas o “julgamento” de certos valores…
Por ex: A muito tempo atras, que era magricelo ou malhado, era fraco e feio, e os gordinhos eram bonitos e com saúde, hoje os gordinhos sao julgados como preguiçosos e doentes…
A sociedade esta nos acostumando a observar mais a vida do próximo do que a nossa própria vida, resultado disso sao grandes bairros onde voce anda na rua e nao sabe nem o nome do vizinho…
Daniel
Que a sociedade atual é hipócrita, isso não resta dúvida!
Se é certo, isso depende do grau de hipocrisia da sua resposta…
Dizer que não jogamos o jogo e que não aderimos à esse sistema seria ser hipócrita dentro de uma sociedade hipócrita! (contaraditório, redundante???)
Guilherme
Ótimo texto, muito interessante.
A hipocrisia é a posição mais cômoda e vantajosa que se tem a tomar,mas se todas as pessoas optarem por ser sinceras, depois de um tempo a sociedade acabará se acostumando com a verdade, tratando a verdade com naturalidade como trata a mentira, apesar de se você toma a posição de ser sincero acaba perdendo algo.
Da ideia de que mentir e trair são coisas certas a se fazer e que é vantajoso quando acaba não sendo descoberta ou punida tal mentira, é que acabam surgindo pessoas como políticos corruptos brasileiros, que se aproveitam da impunidade e tem como certo que mentir é coisa mais vantajosa a se fazer.
Prefiro uma pessoa sincera,porque as vezes pode doer algumas verdades que diga, mas assim posso corrigir alguns erros, como por exemplo : Se eu ando de forma esquisita e todos comentam sobre isso, sem eu saber. Vem uma pessoa chega e diz que ando de forma esquisita, mas de um jeito para não me ofender, só para querer me ajudar, pode doer essa verdade , mas depois me recupero e talvez posso corrigir esse meu erro, graças a pessoas que me disse isso, posso tentar corrigir isso.
Vejo a verdade como um remédio com gosto ruim,mas que você precisa tomar para se sentir melhor e que tem um gosto horrível e a mentira seria uma droga que me causa ilusões e que me tira da realidade por não suportar a realidade e a temer.
Mas sei que é impossível não mentir, mas tento ao máximo não mentir.
Vitor
A sociedade muda em paralelo com a mudança de valores, hoje em dia os “contatos” são bastante valorosos, e fazemos de tudo para tê-los a qualquer custo… a pessoa “influente” é estereotipada como alguém que bem relacionada com todos… na verdade não passe de um enorme idiota… quero que, na verdade, todos tomem nos respectivos tobas, caso compactuem com isso… se não gostares passe no meu departamento depois pra fazermos um “bate-papo”. =D
Leonardo
O texto é bom, apesar de não ser 100% consenso. Aliás, nesta vida o que será que alcança 100% de perfeição? Quase nada. O problema é nossa atitude quando vemos absurdos: achar que é normal e empurrar com a barriga, ou se indignar e partir para alguma ação concreta para melhorar alguma coisa.
Pessoalmente nunca fui muito fã de gente muito descontraída que dá risada de tudo, porque aqui embaixo o pau está comendo e ficar rindo à toa nunca resolveu o problema de ninguém. Muita gente come o pão que o diabo amassou, e até morre, por causa de safadezas e falta de caráter alheio.
Nesse nosso Brasil da lei do Gérson, acho importante refletir sobre cada ação nossa no dia-a-dia, porque delas dependem outras pessoas, que no final vão ter condições para avaliar se o que fazemos valeu ou se foi muito ruim para alguém.
Por isso não sou muito fã de gente artificialmente alegre: se entusiasmam tão rápido com qualquer bobagem, mas porque demoram tanto para perceber que ser livre é só a metade da história? A história toda também inclui o outro lado da moeda, que se chama RESPONSABILIDADE.
Esse sempre foi e sempre vai ser o eterno dilema da humanidade: perceber a seriedade e a gravidade da situação e assumir a RESPONSABILIDADE pelas próprias atitudes.
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